O que é underground? O que é uma cultura "underground"? O que é um estilo, uma vertente, uma vanguarda "underground"?
Traduzido à letra, o conceito, assim lhe podemos chamar, significa "debaixo da terra", o que já de si sugere algo isolado, recôndito. Alargando a análise ao meio urbano contemporâneo tão de si agitado e confuso, o conceito ganha nova vida: representará o Metro londrino para os mais cosmopolitas e, sendo aqui que eu quero chegar, representa uma arte, um estilo diferentes, coesos, restritos e pouco visíveis aos grandes meios de comunicação, sobretudo aos dotados de grande predominância no que à orientação multimédia/audiovisual comercial diz respeito.
Ora num mundo de hoje em que a palavra globalização é utilizada de uma forma tão intensa (chegando-nos a sugerir que de facto é bem aplicada), quantos não são aqueles que se insurgem contra a massificação e vulgarização na música, na literatura, no cinema ou nas mais variadas artes plásticas?
O comercial ataca!!
Não poderia ser este o grito do Ipiranga por parte de um qualquer grupo, tendência, estilo, movimento artístico/cultural/social?
A tónica desta minha dissertação coloca-se pois no que me atormenta neste processo de contestação/emancipação/subversão, como lhe quiserem chamar. Isto é, até que ponto uma cultura, um movimento é underground? E quando é que o deixa de ser? E como se avalia, mede ou quantifica essa alteração do estado das coisas? Imaginemos no panorama musical. Será pelo número de exemplares vendidos no mercado? Os Doors são das bandas que mais já terão vendido neste mundo e, ouvidos por muita ou pouca gente, por pessoa do género x ou pessoa do género y, manterão sempre a sua essência, o seu vibe, a sua atitude, o seu carisma e, mais do que tudo isto somado, uma aura que nem nós, ouvintes, ou eles próprios sabem o que é e que nos liga a um estado de espírito, a uma forma de estar. Uma posição especificíssima, diferente de qualquer outra banda (o vice-versa também se aplica) que faz com que, de cada vez que ouçamos o Jim a puxar pelas goelas, sintamos algo que só nós sentimos e que não tem qualquer repercussão noutro artista em todo o mundo. Permite-nos ainda situar numa altura, numa atitude, num conceito e em tudo o mais que a nossa dopamina quiser/puder produzir. Citei os Doors pelo manto metafísico que os envolve, dado que nem é das bandas que mais aprecio. Todavia acabei por entrar por num campo que não desejava e que torna mais complicada este escrito: a diferença entre genialidade (de um grupo, movimento ou estilo) e a genuidade, o status undergrounds ou não deles (grupos, estilos, etc) mesmo.
Voltando então ao que me interessa, a genuidade, vou fazê-lo expondo aquilo que uma observação constante (boa qualidade, esta) das coisas me despertou: para uma cultura, arte ou estilo ser underground terá inexoralmente que ser e permanecer como algo fechado, isolado e de difícil acesso. Os seus principais veículos, e aqui falo das pessoas em si (artistas, cantores, líderes) terão que ser sempre "radicais", extremistas, fechados (não ao mundo mas à cultura que dinamizam). Senão vejamos: de cada vez que alguém muda (a mudança aqui não implica inovação) o status de uma cultura, retirando-lhe o cariz alternativo e vulgarizando-o, rapidamente é rotulado de "comercial", "pop", "mainstream". E por quem é colado este rótulo? Pelos que fazem parte da velha guarda. E quem são os da velha guarda? Os que estão na cena há muito tempo, e que muitas das vezes se insurgem contra os que não os ouvem ou desprezem. Contradição? Talvez. É um fenómeno muito mais complexo do que parece à primeira vista.
É evidente que posso ser acusado de de estar a ignorar muitas outras questões: uma cultura pode nunca perder a sua veia alternativa não obstante a sua exploração e massificação por certos indivíduos; os termos "radicais" ou "extremistas" talvez sejam exagerados; há sempre a possibilidade de se estabelecer um equilíbrio profícuo entre mainstream e old school (até porque existem casos disso mesmo). Ok, tudo isto é verdade, mas o que mais me interessa é clarificar o facto de que uma cultura ou corrente só permanecerá underground, oldschool, alternativa, como preferirem, enquanto, quando e se os seus fundadores/activistas/líderes lhe continuarem a dar um forte cunho pessoal, fechado e de unidade.
Pensemos na cultura Hip-Hop (a escolha não é ao acaso, já veremos porquê). Aprecio muito (português, inglês, angolano, francês, americano, brasileiro), ouço também há muito tempo e sigo os que mais gosto, procurando ao mesmo tempo descobrir e redescobrir novas ou velhas relíquias. Ora o meio hip hop é o caso paradigmático da realidade conflituosa entre mainstream e old school. Centremo-nos na cena tuga. Quantos não são aqueles que se revoltam contra os chamados "fakes"? Acusam-os de falta de carisma, de deturparem a escola do rap, de se venderam às editoras, de produzirem o que os padrões de mercado definem, por aí fora.. Mas o interessante aqui é ver como certos 'reals' acabam por caírem na malha comercial e depois serem criticados pelos que antes estavam do seu lado, não se percebendo então em que ponto estão. O rapper e produtor Boss AC é exemplo. Presente nas compilações do Rapública (1995) e com maquetes amadoras que o elevaram ao estatuto de grande nome da cena rap portuguesa, é com o lançamento do CD Ritmo, Amor e Poesia que se dá a conhecer ao país, saltando para os palcos, festivais, televisões, telenovelas,..
E hoje? É com ele que os ditos oldschool gravam novos ep's? Não. É ele que aparece nas capas da Hip-Hop Nation? É ele a referência dos novatos do meios mais desfavorecidos da cada vez mais periférica cidade lisboeta? Creio que não. É evidente que é e será sempre um símbolo do Hip-Hop nacional mas não terá perdido o carisma subversivo que antes detinha? O que se passou então? Talvez Boss AC não seja "radical" ou "extremista" e por isso, para ele, não haja qualquer impedimento em produzir coisas diferentes. Isso é criticável? É e não é. É do ponto de vista que como que abandonou a vertente e o estilo que o projectou. Não é, na medida em que simplesmente dinamizou uma cultura, expandindo-a e fazendo-a lucrar, o que nos leva já para questões do foro sociológico do tipo "Uma coisa é boa porque vende?/ Eu gosto de coisas que só eu e os meus oiçam ou que seja ouvido pelo vizinho do lado?". No nosso país esta situação é mais difícil de mostrar dada a pequenez do meio mas se saltarmos até aos EUA, pátria do hip-hop, rapidamente nos apercebemos da complexidade e efemeridade dos que são ou se dizem oldschool.
Talvez este texto paute pela confusão, dado que, agora me apercebo, talvez o mais complicado de definifir seja o conceito à volta do qual tanto deambulei: oldschool, underground, roots. Ora numa pesquisa rápida obtemos: "Underground, A cultura underground também pode ser chamada de contracultura". Apenas isto. Quando clicamos em contra-cultura, somos levados para um campo diferente relacionado com a contestação de valores sociais iniciada na década de 60 e por isso afastada do que para aqui desejamos. A conclusão é simples: nem o termo está bem definido.
Será esta indefinição, este desconhecimento concreto a base de todo o conflito entre o que é novo, que se expande, que mais vende e o que é a raíz de algo, a genuidade, a "escola"?
terça-feira, 17 de junho de 2008
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1 comentário:
acho que o underground deve ser mais ligado a mantermo-nos fiéis a nós mesmos do que a uma cultura fechada, porque se somos underground e acreditamos no que defendemos como estando certo é lógico que aceitemos que os outros também cheguem a essa mesma conclusão alargando-se assim o underground a todos os que concordam com o difundido por este e gostando do msm, ora se isto evoluir o underground pode crescer atingindo grandes massas, o que não significa que deixa de ser underground, apenas q conseguiu sair da margem não pela sua vontade mas pela sua qualidade tornando-se uma cultura emergente, claro q quando isto acontece outro underground surgirá que criticará este por ser agora uma cultura de massas, e assim sucessivamente num eterno ciclo que é o aperfeiçoamento e a mudança. Mas sobre este assunto muito se pode falar e discutir, pois é dificil "separar o trigo do joio", perceber onde começam os fakes e acabam os reais...
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